Segundo regras, para ser pintura, ela, a pintura, sempre dependeu de seu próprio fazer, e naturalmente é impossível pintar sem ter experiência. É impossível pintar sem pintar. Eu não acho que a pintura morreu, porém acho que hoje ela já nasce pronta. Quando projeto fazer uma “pintura”, busco começar pelo fim, considerando de início como se ela já estivesse “terminada”, e questionando no processo inverso, a autonomia e a ordem das razões do caminho que fatalmente a culmina.

Um objeto pictórico como um bólide de Oiticica, não sendo pintura, para ser algo deve apresentar o contra-senso de só existir autenticamente através de um exame particularmente pictórico. Toda grande mentira revela uma grande verdade.
Assim, à luz de uma “verdade” me permito pintar, ou mentir pintura, sempre aos impulsos de uma realidade estranha que fixe, sem firmar, o peso da experiência.

Gosto mesmo é das maçãs de Cézanne, por só terem precisado da tinta para estarem realmente fixadas no plano da tela. Enfim, eu sou tentado pela idéia de que em toda a arte visual qualquer relação entre cores e corpos, ordenada ou não, por mais profunda, por mais concisa, por mais concreta, nunca deixa de ser na verdade, a condição de um instável e efêmero efeito, de cujo “veneno” a inteligência da visão humana é vítima natural.

Não é pela justiça, nem pelo sentimento, mas por estarmos em um mundo dominado pela imagem de massa, que se busca lugar para a arte na vida ou na política.

Mas não pretendo saber mais e nem além do que as coisas que comumente já se sabe. O propósito maior no curso de meu trabalho é buscar o belo na clareza, não na verdade. O mesmo propósito que creio ser ou ter sido fundamental a antigos, recentes e atuais, distantes e próximos artistas que admiro, por mais ou por menos estetas ou políticos, e aos quais devo minha arte.

Tony Camargo

Texto da exposição Tony Camargo, realizada em maio/junho de 2008, na Galeria Casa Triângulo, em São Paulo.