A apresentação de duas pesquisas paralelas, porém distintas, em um mesmo evento de exposição, é sintomática de uma velha e recorrente vontade que tenho de analisar, para compreender melhor, em que ponto a autonomia fatalmente ocorre em um trabalho de arte. O encontro de duas séries de trabalhos que se estruturam e dependem de uma análise estritamente pictórica para poderem ser realmente “vistos”, intensifica essa análise. Em ambos os casos apresentados, a série Videomódulos (sala 1) e a série Planopinturas Iconográficas (sala 2), a unidade de cada trabalho torna-se neutra, pois pela padronização da forma e da escala de todas as peças do conjunto, cada autonomia possui relação direta e uniforme com outras autonomias. Com a apresentação exclusiva de várias “unidades neutras”, a mim torna-se mais clara a percepção de que no trabalho de um artista (à maneira que eu entendo o que seja um trabalho de artista), duas ou mais pesquisas formais distintas sempre acabam buscando o mesmo sentido. E é por isso, por buscarem um mesmo sentido, que essas duas “diferentes” séries simultaneamente protagonizam um evento de exposição “dupla-face”, que a meu ver, pode a gosto ser comensurado pelo olhar dos expectadores quanto a conter várias ou apenas duas obras, sem que nenhuma das eventuais discordâncias seja uma mentira. Afinal, a arte de fazer arte, que utopicamente tento, se um dia realmente a conseguisse, anularia enfim a existência autônoma da obra de arte, porque incluiria a obra de arte à infinitos conjuntos de unidades, inaugurando assim a existência real da arte na superfície de todas as linguagens.

Tony Camargo

Texto da exposição individual Videomódulos e Planopinturas Iconográficas, realizada em março/abril de 2012, no Museu da Gravura, em Curitiba.